Morador de Cruzeiro do Sul, Paulo Onofre Lopes Craveiro é deficiente visual e faz tratamento de hemodiálise há seis anos. O jazigo foi construído em Tarauacá, município onde o cemitério enfrenta problemas de superlotação.

Por conta de sua condição de saúde, Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 59 anos, decidiu construir o próprio túmulo ainda em vida — Foto: Reprodução/ Instagram
“Quando a pessoa morre, tudo vira despesa. Velório, caixão,
sepultamento. Sendo assim, eu preferi deixar tudo já organizado para minha
família.”
A fala é do professor Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 60
anos. O que para muitas pessoas é um temor, para ele despertou a necessidade de
organização. Deficiente visual desde 2023 e em tratamento continuo de
hemodiálise há seis anos, foi por conta de sua condição de saúde que ele
decidiu construir o próprio túmulo ainda em vida, em Tarauacá, no interior
do Acre, para evitar transtornos à família se precaver em relação à logística
fúnebre.
O túmulo fica localizado no Cemitério São João Batista, único da cidade de Tarauacá. A obra foi concluída em 2025, em cerca de uma semana, e custou aproximadamente R$ 6 mil, incluindo mão de obra e materiais.
Segundo o professor, a ideia de antecipar a construção surgiu
há cinco anos, quando passou a conviver com as limitações impostas pela doença.
“Eu só quis deixar tudo encaminhado. Aqui é passagem, ninguém fica para
sempre”, acrescentou.
Ao g1, o chefe de gabinete da prefeitura de
Tarauacá, Edmundo Maciel, disse que o serviço de construção de um novo
cemitério na cidade já foi licitado e contratado e que está sendo feita a
construção do acesso e pavimentação até o local para iniciar obras no verão.
A estrutura do túmulo do professor tem apenas uma gaveta, é
revestida em porcelanato preto com detalhes dourados e traz uma cruz com asas
de ferro, inspirada no Salmo 91, da Bíblia. Cada detalhe da sepultura foi
escolhido criteriosamente por Paulo.
"O preto representa o luto, e o dourado é voltado para a luz", disse.
Jazido tem apenas uma gaveta e revestido em porcelanato preto com detalhes dourados — Foto: Arquivo pessoal
Natural da terra do abacaxi, como é conhecida Tarauacá, Paulo
decidiu migrar para o município vizinho, Cruzeiro do Sul em 2020,
após perder a função renal e passar a depender do tratamento. Cruzeiro do Sul
abriga uma das poucas clínicas de hemodiálise no interior do estado.
"Tive complicações da diabetes e acabei perdendo
totalmente a visão entre 2022 e 2023, primeiro foi o olho direito e depois o
esquerdo. Junto disso, ainda faça o tratamento renal na Clínica de Doenças
Renais do Vale do Juruá, através do Sistema Único de Saúde (SUS)", contou.
Perfil independente
Para o filho dele, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro
e morador de Mato Grosso, a decisão reflete o perfil independente do pai.
O filho ainda contou que o pai sempre quis resolver tudo
sozinho e apesar das limitações, antecipar o túmulo foi uma forma de manter a
autonomia.
“É algo diferente da gente presenciar no dia a dia, mas meu
pai é cego e em hemodiálise, nesses casos, os médicos dizem que a expectativa
de vida é de até seis anos de vida, então ele quis optar por já fazer o túmulo
e não incomodar ninguém", disse Craveiro.
Respeito às raízes
Paulo contou ainda, que sempre quis ser enterrado em
Tarauacá, onde passou a maior parte da vida e onde estão sepultados seus
familiares. No entanto, a falta de espaço no cemitério impediu que a família
ampliasse as gavetas já existentes.
“Hoje é um sepultamento por cima do outro. Quando aparece um
espaço, já tem outro embaixo”, relatou.
Para o professor, a reflexão sobre morte é um assunto
inevitável e que não deve ser assustador. Mesmo assim, ele leva a vida com
tranquilidade.
Paulo mantém uma rotina ativa e mora com a mãe, de 82 anos,
em um apartamento adaptado com recursos de acessibilidade, como leitor de tela,
comandos de voz e assistentes virtuais. Fora os dias de tratamento, frequenta
balneários e passa boa parte do tempo ouvindo podcasts e conteúdos
informativos.
"A gente aprende até morrer. Essa vida é uma passagem. A
morte é um mistério que todo mundo vai enfrentar, mas as pessoas evitam falar
sobre isso", destacou.
Superlotação
Por conta da superlotação do principal cemitério de Tarauacá,
a prefeitura municipal divulgou em dezembro de 2022, o início do serviço de
terraplanagem na área onde seria construída o novo cemitério municipal de
Tarauacá, entretanto, três anos depois o local ainda não foi entregue.
À época, o Ministério Público do Acre (MP-AC) chegou a
instaurar um inquérito civil para apurar possível prática de crime ambiental
pela Prefeitura de Tarauacá com relação à obra de ampliação da estrutura do
Cemitério São João Batista.
Naquele ano a prefeitura ainda divulgou em site oficial sobre
o início do serviço no terreno adquirido por R$ 400 mil. Já no inquérito do MP,
consta que nenhuma informação foi oficializada junto à promotoria da cidade
sobre o terreno adquirido ou se este possuiria licença ambiental.
Quando procurado pelo g1, o então secretário de
Meio Ambiente, Degilson Silva afirmou à época que, na verdade, houve um erro na
divulgação ao afirmar que foi feito a terraplanagem no local.
“A prefeitura fez a aquisição dessa área e lá tinha uma
licença para exploração de minério, barro e areia. A lei é clara que é
obrigatório fazer o processo de recuperação da área degradada. Entramos com um
pedido de licença prévia e depois disso é que podemos iniciar os estudos para
posteriormente fazer o cemitério”, afirmou o secretário.