Imagens de câmeras corporais flagraram policiais militares
agredindo, ameaçando com armas e submetendo dois adolescentes a uma
“roleta-russa” durante uma operação na Favela da Caixa D’Água, na Zona Leste de
São Paulo.
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| Gravações mostram agressões e ameaças a adolescentes em operação policial na favela |
Agressões e ameaça com arma na cabeça
Nas imagens, dois policiais abordam um adolescente que não reage. O cabo Sandro
Nascimento o segura pela camiseta e pelo pescoço, enquanto o soldado Eduardo
Uchoa dá um tapa no rosto do jovem. Em seguida, Sandro aponta uma pistola para
a cabeça dele.
Outro adolescente também é abordado. Sem oferecer
resistência, ele tem uma arma encostada no olho por Sandro. Minutos depois, o
sargento Amauri dos Santos chega ao local e aparece, pela câmera corporal de
Uchoa, batendo com uma vara em um dos garotos.
‘Roleta-russa’ e tortura psicológica
Amauri pede para Uchoa virar de costas para a própria câmera. Em seguida,
coloca uma única bala no tambor de um revólver, gira o cilindro, fecha a arma e
a aponta para a cabeça de um dos adolescentes. Ele aperta o gatilho, mas o
disparo não ocorre.
"A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente
para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito
morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima",
afirma Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar.
Depois, o sargento encosta a arma no rosto e no pescoço do
adolescente. As imagens mostram que Uchoa presencia a ação, não interfere e
ainda ri. Em outro momento, Amauri empurra a cabeça de um dos jovens com força
contra uma parede.
Casas invadidas e drogas desaparecidas
As gravações indicam que Amauri chegou a obstruir a câmera corporal. Quando o
vídeo retorna, cerca de quatro minutos depois, os policiais obrigam os
adolescentes a circular pela favela e entram em diversas casas sem mandado
judicial.
Em um dos imóveis, são encontrados galões, eppendorfs —
suportes usados como pinos de cocaína — e pacotes aparentemente cheios de
drogas. Parte do material é colocada em uma caixa, enquanto o restante vai para
uma mochila e um saco preto, levados até a viatura do sargento.
Segundo a investigação, esse material desapareceu. Para a
promotora, a entrada nas casas foi irregular e há indícios de desvio das
drogas. "Foi uma ação irregular. Eles não poderiam adentrar imóveis
aleatoriamente da forma como fizeram", afirma Giovana Ortolano Guerreiro.
Condenação e versões dos policiais
O caso veio à tona após auditoria de rotina das câmeras corporais. A
Corregedoria da Polícia Militar investigou e prendeu Amauri e Sandro.
Amauri dos Santos foi condenado pelo Tribunal de Justiça
Militar por tortura, abuso de autoridade, fraude processual — por obstruir a
câmera — e peculato, pelo desaparecimento das drogas. A pena foi de 12 anos e 5
meses de prisão. A defesa dele não se manifestou.
Sandro Nascimento foi condenado por tortura e abuso de
autoridade a 4 anos e 10 meses de prisão em regime semiaberto. Durante o
processo, ele afirmou que encostou a arma no rosto de um adolescente porque se
desequilibrou. O advogado sustentou que a conduta seria apenas uma transgressão
disciplinar, tese rejeitada pela Justiça.
Eduardo Uchoa e outros seis policiais são réus e ainda serão
julgados. Em nota, a defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do
soldado.
Imagens fortes: câmeras corporais flagraram PMs agredindo adolescentes e simulando uma roleta-russa durante abordagem em SP. O caso terminou em condenação na Justiça Militar. 🚨 pic.twitter.com/NnbXERvS2I
— bnewsvideos (@bnewsvideos) July 20, 2026
Câmeras registraram ação mesmo sem acionamento
Quase toda a ação foi registrada porque as câmeras operavam no modo Recall, que
grava continuamente, sem áudio e em baixa qualidade, mesmo sem acionamento do
policial. O sistema foi posteriormente substituído pela Polícia Militar.
Amauri não acionou voluntariamente o equipamento. Já Sandro
ligou a câmera apenas ao entregar os adolescentes às mães e perguntar se alguém
havia batido neles, antes de afirmar que os devolvia “íntegros”. As imagens
anteriores mostram uma abordagem diferente.
A Polícia Militar informou que ampliou o programa de câmeras em 50%, chegando a 15 mil equipamentos, com custo 40% menor, e que acompanha o funcionamento da tecnologia para aprimorar a transparência e a segurança das intervenções.
