Estudo indica que ficar sentado no vaso sanitário mais tempo que o necessário não faz bem para a saúde gastrointestinal. Problema tem atingindo cada vez mais jovens.

Usar celular no banheiro aumenta risco de hemorroidas — Foto: Adobe Stock
Há quem costume levar o smartphone para o banheiro para ler
mensagens ou navegar nas redes sociais. Mas o que parece um passatempo
inofensivo pode se tornar um problema.
Segundo um estudo publicado em setembro na revista científica
PLOS One, quem usa o celular enquanto está sentado no vaso sanitário não apenas
permanecem ali por muito mais tempo. "Isso está associado a um aumento de
46% no risco de hemorroidas", afirmou Trisha Pasricha, gastroenterologista
da Escola de Medicina de Harvard e pesquisadora chefe do estudo.
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Para o estudo, 125 adultos foram questionados sobre seus
hábitos no banheiro durante uma colonoscopia preventiva. Metade dos usuários de
smartphone relatou ficar sentado no vaso sanitário por mais tempo do que o
necessário por causa de seus aparelhos.
Sentar em uma cadeira oferece suporte ao assoalho pélvico,
mas, em um vaso sanitário, é diferente. O assento aberto não oferece apoio
direto. "Isso aumenta a pressão sobre os músculos do assoalho pélvico, o
tecido conjuntivo em torno das hemorroidas e sobre as próprias
hemorroidas", explicou Pasricha.
Todos têm hemorroidas, que são pequenas protuberâncias
altamente vascularizadas na junção do reto com o ânus. No enquanto, quando elas
aumentam de tamanho devido à pressão do esforço para fazer cocô, isso pode ser
tornar um problema, além de ser doloroso. Os sintomas variam de coceira e
ardência a sangramento.
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Como reduzir o risco de hemorroidas
Embora as hemorroidas sejam desagradáveis, geralmente são
tratáveis, e muitas vezes, podem até ser prevenidas. Os especialistas fornecem
cinco dicas simples:
1. Seja breve
Uma regra prática simples: no máximo cinco minutos no vaso
sanitário. "Esse deve ser o limite absoluto", diz Pasricha. Se não
conseguir fazer cocô, se levante, se movimente e tente novamente mais tarde.
2. Deixe o celular de lado
Se precisar do seu smartphone para relaxar e se distrair,
você pode usar a "regra dos dois TikToks ". Após assistir a dois
vídeos, faça uma pausa e se pergunte: "por que ainda estou sentado
aqui?"
3. Adote a postura correta
A posição ao sentar é crucial. Se os seus joelhos estiverem
mais altos que seus quadris – por exemplo, usando um banquinho sob os pés – o
reto fica elevado e as fezes podem passar com mais facilidade.
4. Consuma mais fibras
A alimentação é fundamental. Fazer esforço para fazer cocô é
uma das principais causas para o desenvolvimento de hemorroidas dolorosas. Uma
solução simples: comer mais fibras . Elas podem "amolecer as fezes
endurecidas, evitando o esforço", afirmou o gastroenterologista Ulrich
Tappe. As fibras podem ser encontradas em produtos integrais, leguminosas,
vegetais frescos e frutas. Elas são essenciais para uma boa digestão.
5. Não tenha medo de consultar um médico
Sim, existem assuntos mais agradáveis para conversar do que
sobre fazer cocô. Mas essa vergonha injustificada dificulta a busca por ajuda a
tempo. "Não há nada de vergonhoso em nossos corpos", enfatiza a
gastroenterologista Pasricha. "Podemos resolver muitos problemas de saúde
se levarmos nosso intestino a sério, mas somente se começarmos a falar sobre
ele."
Hemorroidas ainda são tabu
As hemorroidas são muito comuns. Estima-se que afetem mais da
metade de todos os adultos em algum momento da vida. São particularmente
frequentes na terceira idade, em casos de constipação crônica ou durante a
gravidez. Por vergonha, muitos só procuram ajuda médica em estágios avançados.
"As hemorroidas, assim como a síndrome do intestino
irritável, continuam sendo um tabu. Todos se identificam com elas, mas quase
ninguém fala sobre o assunto", afirmou o professor de genética médica da
Universidade LUM, na Itália, Mauro D'Amato.
Isso também influenciou sua pesquisa. Em um estudo genômico
de grande escala realizado no Instituto Karolinska, na Suécia, D'Amato
identificou 102 regiões no genoma que parecem estar associadas a um risco maior
de hemorroidas. No entanto, na época da publicação do estudo, em 2021, havia
pouquíssimas pesquisas sobre o problema.
No entanto, o interesse público vem aumentando recentemente,
também devido a vozes influentes nas redes sociais. "Quando pessoas
famosas falam sobre o problema, muitas dizem: 'ah, eu também tenho isso'. Isso
aumenta a conscientização, mais pessoas vão ao médico e algumas delas são
recrutadas para estudos. Isso contribui significativamente para o avanço da
ciência", diz D'Amato.
Os mais jovens também podem ser afetados
Especialistas como Pasricha observam cada vez mais casos em
pessoas mais jovens e suspeitam que os smartphones desempenhem um papel
importante. Somente na Alemanha , mais da metade dos adultos leva o celular
para o banheiro, segundo uma pesquisa do instituto britânico de pesquisa de
opinião YouGov. Entre os jovens de 25 a 34 anos, esse total passa de 80%.
"A idade média em que as hemorroidas aparecem pela
primeira vez está diminuindo", observou D'Amato.
Pasrucha, por sua vez, alertou que os homens podem ser
particularmente afetados. Seus pacientes do sexo masculino relatam que
frequentemente passam muito mais tempo no banheiro do que o necessário – junto
com seus smartphones.
Smartphone como fator de risco
O problema, no entanto, não é novo. Mesmo antes da existência
dos smartphones, os médicos já alertavam sobre ficar horas sentado no vaso
sanitário lendo jornal. Naquela época, a distração em si não era o problema.
Uma breve pausa pode até facilitar para ir ao banheiro.
"O problema surge quando a distração ofusca o verdadeiro
motivo de ir ao banheiro – e você até se esquece por que foi", afirma
Pasricha.
Os smartphones aumentam o risco em comparação com os jornais.
Redes sociais, como Instagram e TikTok, são projetadas para manter nossa
atenção pelo maior tempo possível, mesmo quando estamos no banheiro. Assim, os
usuários de smartphones no estudo passavam mais de cinco minutos no banheiro
várias vezes por semana. Metade deles admitiu perder a noção do tempo com
frequência.
No entanto, o gastroenterologista Ulrich Tappe, que não
participou do estudo, disse ter dúvidas que os smartphones desempenhem um papel
decisivo no desenvolvimento de hemorroidas dolorosas. "As hemorroidas
estão relacionadas aos movimentos intestinais e à alimentação", explicou.
Segundo o especialista, fazer esforço para ir ao banheiro sobrecarrega o
assoalho pélvico e, com o tempo, pode favorecer o desenvolvimento de
hemorroidas dolorosas.
Fonte: g1