Segundo Raquel Maria de Oliveira Negrão, o esposo pegou
empréstimos com amigos, bancos e até agiotas para sustentar o transtorno.
Depois da morte dele, ela ainda foi alvo de cobranças.
A enfermeira Raquel Maria de Oliveira Negrão, viúva do
policial militar Danilo Lopes Negrão, que gravou um vídeo relatando o caso
do vício do marido em apostas, só descobriu o tamanho da dívida que ele havia
contraído para sustentar a ludopatia depois da sua morte. Ela contou que,
somados, os empréstimos que o PM contraiu somaram quase R$ 1 milhão.
🔍 ludopatia é o nome dado ao transtorno
relacionado ao vício em jogos de azar.
Raquel contou que Danilo começou a apostar durante a Copa do
Mundo de 2022, em dezembro. Naquele ano, o mundial foi realizado em período
diferente, em função da pandemia do coronavírus. Em setembro de 2023, ele
morreu.
"Ele entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava perdendo a dignidade dele como homem", afirmou.

Danilo Negrão morreu em 2023. Viúva afirma que policial desenvolveu vício em apostas on-line durante a Copa do Mundo de 2022 — Foto: Reprodução/Instagram de Raquel Maria
A moradora de Goiânia conta que, quando o marido morreu, ela
ficou se perguntando o porquê de ele ter feito aquilo.
"Depois de alguns dias, eu fui analisar o computador e
vi uma planilha com os nomes das pessoas com quem ele tinha pegado dinheiro
emprestado. Amigos e alguns agiotas. E pegou empréstimo com banco também",
detalhou.
A enfermeira destaca que ele pegava empréstimos "com
todo mundo que ele podia" e as pessoas concordavam porque ele era uma
pessoa honesta. "Ninguém imaginava o que ele estava passando", disse.
Cobranças
Durante os cerca de dez meses em que o marido lidava com o
vício, as contas domésticas da família chegaram a atrasar porque, segundo
Raquel, ela precisou sustentar a casa praticamente sozinha.
'Eu comecei a ficar doente emocionalmente por causa disso.
Tive uma alergia no corpo. Ele pegando dinheiro emprestado e apostando. E as
contas da casa ficaram todas para mim", afirmou.
Ela conta que, logo depois da morte, viveu "o pior
inferno da sua vida", que não lhe permitiu nem viver o luto direito.
"Muita gente próxima chegou e falou 'olha, o Danilo deixou uma dívida
comigo. Eu queria ver como você vai fazer para pagar essa dívida. Até há pouco
tempo, tinha gente me ameaçando", relatou.
Passados quase três anos da perda do marido, Raquel ainda
vive os impactos financeiros. Em função de processos judiciais, a casa da
família não pode ser vendida. "Eu moro até hoje na casa onde aconteceu o
ato", explicou, referindo-se à morte.
Segundo a viúva, incentivado pela família, Danilo chegou a
procurar terapia, mas depois ela ficou sabendo que ele faltava às consultas.
Ele nunca recebeu o diagnóstico de ludopatia porque, segundo Raquel, ele não
relatou o vício aos médicos.
A enfermeira disse que decidiu fazer o vídeo no dia último
jogo do Brasil da fase de grupos, na Copa deste ano, porque lhe deu um
"gatilho", ao se lembrar que Danilo perdeu grande quantia de dinheiro
ao apostar na vitória da seleção brasileira no jogo contra a Croácia, pelas
quartas de final do mundial de 2022. Após empate no tempo regulamentar, o Brasil
foi derrotado nos pênaltis e eliminado. "Foi o jogo do dia 9 de dezembro,
dia do meu aniversário", destacou
Como pedir ajuda
Segundo Raquel, Danilo ficou viciado em apostas esportivas e
não nos jogos on-line, de cassino, como Tigrinho e Aviãozinho.
O transtorno foi adquirido pelo esposo antes da
regulamentação do mercado de apostas esportivas e jogos on-line, pela Lei
14.790/2023. Desde o início do mercado regulado, em 2025, as plataformas
legalizadas, ou seja, que possuem autorização do Ministério da Fazenda para
funcionarem no Brasil, possuem uma ferramenta de autoexclusão, que permite que
o apostador bloqueie o próprio acesso. Ela não existe em sites clandestinos.
Além disso, o Ministério da Fazenda, que regula o setor,
lançou, em dezembro de 2025, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão,
pela qual o CPF da pessoa pode ser bloqueado em todos os sites de apostas.
O Ministério da Saúde alerta que, ao perceber sinais de
compulsão, seja por parte da própria pessoa ou de um familiar, é preciso
procurar ajuda. Os caminhos para recebimento de apoio estão descritos no Guia
de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas,
elaborado pelo ministério.