Um vídeo que circula nas redes sociais desde a última
quarta-feira (8/7) tem gerado forte indignação em Manaus. Nas imagens, um homem
aparece chorando copiosamente e caindo de joelhos durante um culto evangélico
em Santa Catarina. Para os fiéis presentes, tratava-se de um momento de
redenção espiritual. Para a polícia e dezenas de famílias amazonenses, o homem
no altar é Raylander Rosseti Pereira, criminoso foragido e apontado como
matador da facção Comando Vermelho (CV) na capital amazonense.
O registro foi publicado pelo pastor Bruno Gustavo, que atua
de forma itinerante e visitava a Igreja Pentecostal Jerusalém de Deus (IPJD),
localizada no bairro da Barra, em Balneário Camboriú (SC).
A Cena: Profecia e Choro de alívio
No vídeo que viralizou, o pastor caminha até Raylander e
profere palavras de encorajamento, afirmando que Deus o tirou “da terra de
Manaus” para abençoá-lo no Sul do país.
“Eu não falei pra você, Railander, que eu ia tirar você
daquela terra de tão longe? Que eu ia lá na terra de Manaus e eu ia te trazer
pra essa terra […] Olha o que eu tenho feito aqui. Fui eu que te tirei daquela
terra, meu filho, e falei pra você que te levaria pra uma terra para te
abençoar”, diz o pastor no microfone.
Profundamente emocionado com a mensagem, Raylander chora,
esconde o rosto com as mãos e se ajoelha com o rosto rente ao chão, amparado
pelo preletor e por outros membros da igreja.
A Realidade: Mandado de Prisão em Aberto
Apesar do clima de milagre na congregação catarinense, a realidade jurídica de Raylander é bem diferente. Ele estampa os cartazes de “Procurados” da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).
De acordo com a Polícia Civil, Raylander possui mandado de
prisão em aberto, é classificado como indivíduo de alta periculosidade e atua
como membro ativo de uma facção criminosa. Relatos apontam seu envolvimento
direto em homicídios e expulsão de moradores de áreas dominadas pelo tráfico no
Norte do país.
Revolta das Vítimas e o “Tribunal do Crime”
A aparição do foragido vivendo livremente em Balneário
Camboriú causou revolta imediata de internautas amazonenses que o reconheceram.
Nos comentários da publicação, o choque entre a nova vida religiosa de
Raylander e o rastro de sangue deixado em Manaus ficou evidente.
“Esse cara aí matou tanta gente lá em Manaus, fez tantas mães
ficarem sem seus filhos. Agora tá aí chorando. A minha mãe é uma que até hoje
chora pelo filho dela” desabafou um internauta. “Até hoje a minha sobrinha
chora porque não tem o pai. O meu irmão tava trabalhando, tu foi lá e mandou
matar o meu irmão.”
O Escudo de “Entrar pra Bênção”
A ida de Raylander para uma igreja evangélica a mais de 3 mil
quilômetros de distância de sua base de atuação ilustra uma dinâmica complexa e
cada vez mais comum no Brasil: a chamada “Lei do Crime”.
No código de conduta das facções criminosas, quando um membro
decide abandonar a criminalidade para se converter legitimamente a uma religião
evangélica, diz-se que ele “entrou pra bênção”. Ao assumir a postura de fiel e
frequentar os cultos rigorosamente, o indivíduo ganha uma espécie de
“salvo-conduto” do Tribunal do Crime, ficando imune de ser executado por seus
antigos comparsas ou rivais.
No entanto, o perdão concedido pelas facções não se estende à
Justiça comum. Raylander segue foragido perante o Estado, e as autoridades de
segurança pública do Amazonas pedem que qualquer informação sobre seu paradeiro
seja repassada ao Disque-Denúncia 181, com garantia de anonimato.
